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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Momentos

Era fim de tarde...um dia de intenso calor como o de hoje. O azul do mar resplandecia e, ao longe, onde o céu e o mar se encontram havia uma névoa branca e luminosa. A limonada estava fresca e deliciosa...
Se fechasse os olhos deixava de ver e ouvir as pessoas e apenas ouvia o som, ora suave ora mais agitado, do mar.
Fiquei lá imenso tempo...calada...Fernando Pessoa estava comigo...calado...
Um cão ladrou ali bem perto. Abri os olhos e comecei a falar. 
Sempre me disseste que não posso deixar morrer o meu sonho...ou morrerei com ele...ou a minha alma fica mutilada...
Ele olhou para mim...com aqueles olhos pequenos que vêm tudo e disse-me que afinal eu não tinha percebido nada do que me ensinou...
Fiquei sem saber o que dizer...ele continuou...não deixar morrer o sonho não quer dizer que tens que ter o mesmo sonho para sempre...aí sim, morrerás com ele e por ele...
Percebi, então, que por vezes é preciso deixar morrer alguns sonhos, para que novos sonhos possam nascer.
Tenho ainda muito que aprender...
Luzia Santos

sábado, 4 de julho de 2015

Lembranças

Quando eu era criança e regressava da escola ouvia os velhos dizerem:
-Corre gaiata...está quase a chover...apanhas uma valente molha.
Eu não corria. Ficava ali...às voltas...com ar apatetado. Tentava descobrir como é que eles sabiam que a chuva estava a chegar. Sabiam. Os velhos da minha infância sabiam tudo. 
A chuva chegava. E eu apanhava a prometida carga de água que me ensopava até aos ossos. Muitas vezes.
Deve ser daí que vem o meu fascínio pela chuva...

Luzia Santos

Ouvi por aí

Quando me dirigia para o ponto de encontro com uns amigos cruzei-me, na rua, com duas meninas, bonitas, no final da adolescência. Bem vestidas,roupas modernas, caras. Cabelos longos, bem cuidados...esvoaçando ao vento.
Quando nos aproximamos ouvi uma delas dizer para a outra:
- Eles sabem cas cenas são largas...cas pessoas na vão tar ali a desmigalhar.
Afastei-me e fui pensando com os meus botões. Realmente, quem vai querer umas "cenas" que ainda vão ter que ser "desmigalhadas"?
Boa tarde.
Sejam felizes


Luzia Santos

A D. Margarida e o senhor Francisco

Fui tomar café depois do almoço e quando regressava a casa encontrei a minha vizinha Margarida. Subimos juntas no elevador enquanto ela, com um sorriso rasgado, escrevia uma mensagem no telemóvel martelando as teclas com força, com o dedo indicador. Quando chegámos ao meu piso despedi-me mas ela saiu atrás de mim...A vizinha se não se importa veja lá se acha bem esta mensagem que acabei de escrever.
Com pouca vontade peguei no telefone e tentei ler...Não sabia que lhe dizer...Então vizinha, não percebe o que aí está escrito?
Bem...não estou a perceber lá muito bem, não (a verdade é que não percebi absolutamente nada...parecia um código qualquer)
Não me diga...eu sou mais velha e escrevo assim...foi o meu neto que me ensinou...(pois, deve ser porque não tenho netos) acha que o Francisco não vai perceber o que lhe digo?
E não aparecia ninguém para me tirar daquele aperto...e já não eram horas de dizer que tinha o almoço no fogão...ai ai...
Também não sabe quem é o Francisco?...nunca o viu aqui na rua?...(ignorância a minha...não consigo ler o texto, não sei quem é o Francisco...socooooooorro) convidou-me para sair esta tarde...disse-me a vizinha que, só agora reparo, traz um dente sujo de baton...deve ser da excitação.
Pois...digo eu sem saber o que mais dizer. Mas ela continuou...eu primeiro disse que não...para não parecer mal sabe? mas ali a vizinha da frente disse-me que as coisas já não se fazem assim e ela sabe das coisas...dizemos não quando não queremos mas dizemos sim quando queremos...é por isso que lhe estou a escrever esta mensagem, para lhe explicar...acha que ele não percebe?
Olhei para ela sem responder...não sabia mesmo o que dizer e tinha a certeza que o Francisco, mesmo cheio de boa vontade não ia perceber. Ela riu-se com satisfação e salvou-me do aperto...olhe vizinha deixe lá...não a empato mais...tem a sua vida...sabe o que vou fazer? apago isto tudo e vou telefonar, assim fica tudo bem explicadinho. Não acha?
Ufa que alívio!...
Espero que esta tarde o senhor Francisco e a D.Margarida não troquem mais mensagens de telemóvel...


Luzia Santos

Sebastião

A minha vizinha está outra vez aos gritos...percebo que está irritada...acontece com frequência mas hoje parece-me pior.
Fico inquieta...será que devo ir ver se precisa de ajuda?...e se ela me mandar meter na minha vida?...ai ai...
Timidamente abro a porta...a vizinha olha para mim com os olhos esbugalhados e os cabelos desgrenhados...(mas porque não fiquei eu em casa?)
Aproximei-me devagar...a vizinha desculpe...mas se houver alguma coisa em que a possa ajudar faça o favor de dizer...
Ai vizinha!...sabe lá o que me aconteceu...uma desgraça...É o meu Sebastião, não para em casa...não sei onde vai, o que vai fazer, com que vai...fico aqui nesta angústia. Veja lá que na semana passada estive dois dias sem saber dele...quase morri de desespero...não acredita?...(claro que acredito)...E hoje...já é noite e não aparece...o malandro...se o apanho nem sei o que lhe faço...vadio...depois de velho...
A vizinha começa a chorar e eu continuo sem saber o que fazer. Está desesperada e eu ali só a pensar que devia mas era ter ficado quieta na minha casa...como estão a fazer os outros vizinhos do piso. Sempre ouvi dizer que entre marido e mulher não se mete a colher...agora já é tarde para me arrepender.
Mas não podemos ficar ali a noite toda...a vizinha em prantos e eu a olhar para ela.
E ele não lhe atende o telemóvel não é verdade? perguntei.
Telemóvel?... a vizinha para de chorar...olha para mim com um esgar que é quase um sorriso...Telemóvel?...já não tem os olhos esbugalhados e os cabelos já não me parecem tão despenteados. Agora vejo que é bonita. Telemóvel?...volta a perguntar enquanto solta uma pequena gargalhada.
Vizinha... o Sebastião... é o meu gato.


Luzia Santos