Era fim de tarde...um dia de intenso calor como o de hoje. O azul do mar resplandecia e, ao longe, onde o céu e o mar se encontram havia uma névoa branca e luminosa. A limonada estava fresca e deliciosa...
Se fechasse os olhos deixava de ver e ouvir as pessoas e apenas ouvia o som, ora suave ora mais agitado, do mar.
Fiquei lá imenso tempo...calada...Fernando Pessoa estava comigo...calado...
Um cão ladrou ali bem perto. Abri os olhos e comecei a falar.
Sempre me disseste que não posso deixar morrer o meu sonho...ou morrerei com ele...ou a minha alma fica mutilada...
Ele olhou para mim...com aqueles olhos pequenos que vêm tudo e disse-me que afinal eu não tinha percebido nada do que me ensinou...
Fiquei sem saber o que dizer...ele continuou...não deixar morrer o sonho não quer dizer que tens que ter o mesmo sonho para sempre...aí sim, morrerás com ele e por ele...
Percebi, então, que por vezes é preciso deixar morrer alguns sonhos, para que novos sonhos possam nascer.
Tenho ainda muito que aprender...
Luzia Santos
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quinta-feira, 16 de julho de 2015
sábado, 4 de julho de 2015
Lembranças
Quando eu era criança e regressava da escola ouvia os velhos dizerem:
-Corre gaiata...está quase a chover...apanhas uma valente molha.
Eu não corria. Ficava ali...às voltas...com ar apatetado. Tentava descobrir como é que eles sabiam que a chuva estava a chegar. Sabiam. Os velhos da minha infância sabiam tudo.
A chuva chegava. E eu apanhava a prometida carga de água que me ensopava até aos ossos. Muitas vezes.
Deve ser daí que vem o meu fascínio pela chuva...
Luzia Santos
-Corre gaiata...está quase a chover...apanhas uma valente molha.
Eu não corria. Ficava ali...às voltas...com ar apatetado. Tentava descobrir como é que eles sabiam que a chuva estava a chegar. Sabiam. Os velhos da minha infância sabiam tudo.
A chuva chegava. E eu apanhava a prometida carga de água que me ensopava até aos ossos. Muitas vezes.
Deve ser daí que vem o meu fascínio pela chuva...
Luzia Santos
Ouvi por aí
Quando me dirigia para o ponto de encontro com uns amigos cruzei-me, na rua, com duas meninas, bonitas, no final da adolescência. Bem vestidas,roupas modernas, caras. Cabelos longos, bem cuidados...esvoaçando ao vento.
Quando nos aproximamos ouvi uma delas dizer para a outra:
- Eles sabem cas cenas são largas...cas pessoas na vão tar ali a desmigalhar.
Afastei-me e fui pensando com os meus botões. Realmente, quem vai querer umas "cenas" que ainda vão ter que ser "desmigalhadas"?
Boa tarde.
Sejam felizes
Luzia Santos
Quando nos aproximamos ouvi uma delas dizer para a outra:
- Eles sabem cas cenas são largas...cas pessoas na vão tar ali a desmigalhar.
Afastei-me e fui pensando com os meus botões. Realmente, quem vai querer umas "cenas" que ainda vão ter que ser "desmigalhadas"?
Boa tarde.
Sejam felizes
Luzia Santos
A D. Margarida e o senhor Francisco
Fui tomar café depois do almoço e quando regressava a casa encontrei a minha vizinha Margarida. Subimos juntas no elevador enquanto ela, com um sorriso rasgado, escrevia uma mensagem no telemóvel martelando as teclas com força, com o dedo indicador. Quando chegámos ao meu piso despedi-me mas ela saiu atrás de mim...A vizinha se não se importa veja lá se acha bem esta mensagem que acabei de escrever.
Com pouca vontade peguei no telefone e tentei ler...Não sabia que lhe dizer...Então vizinha, não percebe o que aí está escrito?
Bem...não estou a perceber lá muito bem, não (a verdade é que não percebi absolutamente nada...parecia um código qualquer)
Não me diga...eu sou mais velha e escrevo assim...foi o meu neto que me ensinou...(pois, deve ser porque não tenho netos) acha que o Francisco não vai perceber o que lhe digo?
E não aparecia ninguém para me tirar daquele aperto...e já não eram horas de dizer que tinha o almoço no fogão...ai ai...
Também não sabe quem é o Francisco?...nunca o viu aqui na rua?...(ignorância a minha...não consigo ler o texto, não sei quem é o Francisco...socooooooorro) convidou-me para sair esta tarde...disse-me a vizinha que, só agora reparo, traz um dente sujo de baton...deve ser da excitação.
Pois...digo eu sem saber o que mais dizer. Mas ela continuou...eu primeiro disse que não...para não parecer mal sabe? mas ali a vizinha da frente disse-me que as coisas já não se fazem assim e ela sabe das coisas...dizemos não quando não queremos mas dizemos sim quando queremos...é por isso que lhe estou a escrever esta mensagem, para lhe explicar...acha que ele não percebe?
Olhei para ela sem responder...não sabia mesmo o que dizer e tinha a certeza que o Francisco, mesmo cheio de boa vontade não ia perceber. Ela riu-se com satisfação e salvou-me do aperto...olhe vizinha deixe lá...não a empato mais...tem a sua vida...sabe o que vou fazer? apago isto tudo e vou telefonar, assim fica tudo bem explicadinho. Não acha?
Ufa que alívio!...
Espero que esta tarde o senhor Francisco e a D.Margarida não troquem mais mensagens de telemóvel...
Luzia Santos
Com pouca vontade peguei no telefone e tentei ler...Não sabia que lhe dizer...Então vizinha, não percebe o que aí está escrito?
Bem...não estou a perceber lá muito bem, não (a verdade é que não percebi absolutamente nada...parecia um código qualquer)
Não me diga...eu sou mais velha e escrevo assim...foi o meu neto que me ensinou...(pois, deve ser porque não tenho netos) acha que o Francisco não vai perceber o que lhe digo?
E não aparecia ninguém para me tirar daquele aperto...e já não eram horas de dizer que tinha o almoço no fogão...ai ai...
Também não sabe quem é o Francisco?...nunca o viu aqui na rua?...(ignorância a minha...não consigo ler o texto, não sei quem é o Francisco...socooooooorro) convidou-me para sair esta tarde...disse-me a vizinha que, só agora reparo, traz um dente sujo de baton...deve ser da excitação.
Pois...digo eu sem saber o que mais dizer. Mas ela continuou...eu primeiro disse que não...para não parecer mal sabe? mas ali a vizinha da frente disse-me que as coisas já não se fazem assim e ela sabe das coisas...dizemos não quando não queremos mas dizemos sim quando queremos...é por isso que lhe estou a escrever esta mensagem, para lhe explicar...acha que ele não percebe?
Olhei para ela sem responder...não sabia mesmo o que dizer e tinha a certeza que o Francisco, mesmo cheio de boa vontade não ia perceber. Ela riu-se com satisfação e salvou-me do aperto...olhe vizinha deixe lá...não a empato mais...tem a sua vida...sabe o que vou fazer? apago isto tudo e vou telefonar, assim fica tudo bem explicadinho. Não acha?
Ufa que alívio!...
Espero que esta tarde o senhor Francisco e a D.Margarida não troquem mais mensagens de telemóvel...
Luzia Santos
Sebastião
A minha vizinha está outra vez aos gritos...percebo que está irritada...acontece com frequência mas hoje parece-me pior.
Fico inquieta...será que devo ir ver se precisa de ajuda?...e se ela me mandar meter na minha vida?...ai ai...
Timidamente abro a porta...a vizinha olha para mim com os olhos esbugalhados e os cabelos desgrenhados...(mas porque não fiquei eu em casa?)
Aproximei-me devagar...a vizinha desculpe...mas se houver alguma coisa em que a possa ajudar faça o favor de dizer...
Ai vizinha!...sabe lá o que me aconteceu...uma desgraça...É o meu Sebastião, não para em casa...não sei onde vai, o que vai fazer, com que vai...fico aqui nesta angústia. Veja lá que na semana passada estive dois dias sem saber dele...quase morri de desespero...não acredita?...(claro que acredito)...E hoje...já é noite e não aparece...o malandro...se o apanho nem sei o que lhe faço...vadio...depois de velho...
A vizinha começa a chorar e eu continuo sem saber o que fazer. Está desesperada e eu ali só a pensar que devia mas era ter ficado quieta na minha casa...como estão a fazer os outros vizinhos do piso. Sempre ouvi dizer que entre marido e mulher não se mete a colher...agora já é tarde para me arrepender.
Mas não podemos ficar ali a noite toda...a vizinha em prantos e eu a olhar para ela.
E ele não lhe atende o telemóvel não é verdade? perguntei.
Telemóvel?... a vizinha para de chorar...olha para mim com um esgar que é quase um sorriso...Telemóvel?...já não tem os olhos esbugalhados e os cabelos já não me parecem tão despenteados. Agora vejo que é bonita. Telemóvel?...volta a perguntar enquanto solta uma pequena gargalhada.
Vizinha... o Sebastião... é o meu gato.
Luzia Santos
Fico inquieta...será que devo ir ver se precisa de ajuda?...e se ela me mandar meter na minha vida?...ai ai...
Timidamente abro a porta...a vizinha olha para mim com os olhos esbugalhados e os cabelos desgrenhados...(mas porque não fiquei eu em casa?)
Aproximei-me devagar...a vizinha desculpe...mas se houver alguma coisa em que a possa ajudar faça o favor de dizer...
Ai vizinha!...sabe lá o que me aconteceu...uma desgraça...É o meu Sebastião, não para em casa...não sei onde vai, o que vai fazer, com que vai...fico aqui nesta angústia. Veja lá que na semana passada estive dois dias sem saber dele...quase morri de desespero...não acredita?...(claro que acredito)...E hoje...já é noite e não aparece...o malandro...se o apanho nem sei o que lhe faço...vadio...depois de velho...
A vizinha começa a chorar e eu continuo sem saber o que fazer. Está desesperada e eu ali só a pensar que devia mas era ter ficado quieta na minha casa...como estão a fazer os outros vizinhos do piso. Sempre ouvi dizer que entre marido e mulher não se mete a colher...agora já é tarde para me arrepender.
Mas não podemos ficar ali a noite toda...a vizinha em prantos e eu a olhar para ela.
E ele não lhe atende o telemóvel não é verdade? perguntei.
Telemóvel?... a vizinha para de chorar...olha para mim com um esgar que é quase um sorriso...Telemóvel?...já não tem os olhos esbugalhados e os cabelos já não me parecem tão despenteados. Agora vejo que é bonita. Telemóvel?...volta a perguntar enquanto solta uma pequena gargalhada.
Vizinha... o Sebastião... é o meu gato.
Luzia Santos
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