terça-feira, 13 de maio de 2014

Momentos

Viajava quieta... no meu lugar...ia pensando tranquilamente na vida. De repente, reparei na mulher que entrou...ainda muito jovem mas já madura...miúda e morena...muito arrumadinha, sem um fio de cabelo fora do lugar. Sentou-se apressada, no primeiro lugar vago que encontrou. Imediatamente saltou-lhe para as mãos a bolsa da maquilhagem...como se soubesse exatamente que era isso que tinha que fazer......sabe de cor o ritual. A mulher...a tal de figura miúda e morena...começou a usar tudo o que levava na bolsa...com gestos precisos e rápidos... os pequenos solavancos do comboio não a atrapalham.
Disfarçou as olheiras...engrossou os lábios...escondeu as rugas e as manchas...iluminou o olhar e realçou o sorriso. Parecia estar a gostar do que via no pequeno espelho.
Uma voz ao meu ouvido perguntou...porque não fazes como ela?...ias sentir-te mais bonita...mais feliz...mais jovem...experimenta...vá lá...
Não liguei...cheguei ao meu destino e saí do comboio...a mulher lá continuou a preparar-se para viver o seu dia...à sua maneira...como se sente melhor e mais bonita.
Eu também...segui o meu caminho...pronta para enfrentar o meu dia...de cara lavada e caracóis desgrenhados...como eu gosto...como me sinto mais feliz...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Fernando Pessoa...sempre

"E, perante a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza dos meus mais originais e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais."

Livro do desassossego

Pablo Neruda

O Teu Riso


 Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas ...
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

Eugénio de Andrade

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais. ...

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

Florbela Espanca

Bendita seja a Mãe que te gerou.
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!
...
Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer ...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver ...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" 



As luzes de Leonor

 
A minha próxima leitura. Comprei mas ainda não me atrevi a começar. As mil páginas do livro tornam-no um pouco desconfortável não sendo possível andar com ele para todo o lado nem manusea-lo com facilidade. Mas estou curiosa...a história é bastante conhecida mas cada autor dá-lhe a sua própria interpretação e quero saber qual é o ponto de vista de Maria Teresa Horta, que conheço mais pela poesia. 
 
"Prémio D. Dinis 2011   Um maravilhoso e apaixonante romance sobre a extraordinária e aventurosa vida da Marquesa de Alorna. Um romance sinfónico sobre a Marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal, neta dos Marqueses de Távora, uma figura feminina ímpar na história literária e política de Portugal. A grande escritora Maria Teresa Horta, persegue-a e vigia-a nos momentos mais íntimos, atraída pela desmesura de Leonor, no seu permanente conflito entre a razão e a emoção. Acompanha-a no voo de uma paixão, que seduz os espíritos mais cultos da época, o chamado “século das luzes”, e abre as portas ao romantismo em Portugal. Um maravilhoso e apaixonante romance sobre a extraordinária e aventurosa vida da Marquesa de Alorna.
Fonte Fnac

Pessoa sempre

O que ando a ler. Fernando Pessoa é uma leitura permanente nas minhas escolhas.

sábado, 7 de julho de 2012

Backès

«Esta obra, graças ao talento do autor, é de uma extraordinária e paradoxal leveza. É uma personalidade, forte, grave e repentista, simultaneamente. Todos os textos estão citados em versão original (grego, latim, francês antigo, russo, inglês, alemão, espanhol, português) e em tradução. Esta convocação de vozes estrangeiras cria a beleza. A maqueta oferece percursos muito variados. Encontramos jogos, sob a forma de perguntas e respostas, estas a procurar três páginas mais adiante. Não nos aborrecemos. E tudo isto é, no entanto, muito sério. Nas notas, em corpo pequeno, encontramos as biografias dos escritores, resumos de obras e definições. O primeiro capítulo coloca a questão principal: Existe uma literatura europeia? E cedo nos apercebemos que todo este livro é pontuado por questões. Este livro erudito é o livro das questões. A elas o autor não responde sempre: Ainda uma questão insolúvel. É que para Backès, como maravilhosamente escreve após ter evocado Homero e Hamlet (There are more things in heaven and earth...), a história da literatura europeia é a da curiosidade insaciável. Um livro óptimo para percorrer solitariamente e a devorar com pequenas dentadas, com uma insaciável gulodice.» «O autor define a literatura europeia (completamente diferente da soma das literaturas de cada país), explica porquê e como ela existe e desenvolve-lhe, passo a passo, a história, desde o início da nossa era até ao nosso século, antes de tomar os assuntos tematicamente (poesia, romance, etc.). Este grande livro, que poderia ser penoso, é de leitura fácil graças à sua divisão em capítulos muito curtos (cerca de duas páginas) e à clareza de redacção: em nota, breves, mas numerosas, notícias sobre os autores e a sua obra; em quadros, os textos citados (igualmente numerosos; sempre com tradução) e os comentários sobre pontos precisos. Em suma, uma mina de ensinamentos, muito útil e comodamente explorável.» Bulletin de Lâ 'Association des Amis de lâ 'Ecole Normale Supérieure

Robert Musil

Uma obra singular e única no panorama da ficção do século XX, um dos mais importantes livros da literatura mundial. Mais do que um romance, "O Homem Sem Qualidades" é o maior projecto romanesco, deliberada e quase necessariamente inconcluso e inconclusivo, da literatura do século passado.
No momento da morte inesperada de Musil em 15 de Abril de 1942, no exílio de Genebra, "O Homem Sem Qualidades" é verdadeiramente o “livro por vir”, aquele cuja essência – no seu protagonista acentrado, no processo da sua génese, no cerne do seu pensamento – é a de um laboratório de possibilidades que o transformarão na obra aberta por excelência e na “tarefa criadora [mais] desmedida” da história da literatura moderna. "O Homem Sem Qualidades" será, durante mais de duas décadas, a obra em processo de criação e transformação que se autonomiza e se impõe de forma obsessiva e implacável ao próprio criador, aprendiz de feiticeiro que a controla cada vez menos à medida que ela se vai transformando numa rede rizomática de possibilidades de crescimento e de perspectivas de finalização sempre adiada, que parece querer reflectir o próprio feixe aleatório de possibilidades que é aquilo a que chamamos “realidade”.
Se a ironia é neste livro, como diz Blanchot, “um dom poético e um princípio de método” que modula, não apenas a palavra mas também a própria composição romanesca, na oposição contrapontística permanente e irresolvida entre “a exactidão e a alma”, a reflexão e os sentimentos, o indivíduo em busca de si e o mundo dos factos (nas vésperas da Primeira Grande Guerra), essa mesma ironia haveria de determinar todo o acidentado e contraditório processo de génese e de publicação deste objecto literário esquivo que, ao contrario do que frequentemente se tem dito, será mais um não-romance do que um anti-romance.

quinta-feira, 12 de abril de 2012


Esta é uma obra comovente que relata a forma como o coração aparentemente gelado de um homem se derrete quando nasce a sua única filha. Jan e Clara Bela desenvolvem uma relação única, que se baseia na alegria de poderem partilhar a presença um do outro.

O presente romance, da autoria de Selma Lagerlöf, vencedora do prémio Nobel da literatura, é a história de um amor profundo que une pai e filha, e também a descrição da morte do mundo das tradições rurais, e da emergência do novo mundo, urbano e desapiedado, que o veio substituir.
Esta é a história de um pobre camponês da Suécia, que ficou tão perturbado com o facto de a filha ir para Estocolmo para ganhar o dinheiro necessário à amortização de uma dívida da família, que acabou por enlouquecer. O homem passou então a dirigir-se quase diariamente ao embarcadouro da terra para aí aguardar o regresso da filha. E um dia em que lhe fizeram algumas insinuações sobre a ausência da menina, Jan declarou: «Quando a Imperatriz Clara de Portugal chegar aqui ao embarcadouro, com uma coroa de oiro na cabeça… veremos se te atreves a dizer-lhe na cara o que hoje me disseste a mim.» E a partir de então, o homem tornou-se Johannes de Portugal!


Uma conjectura do autor é a de que este livro poderia servir de guia a um amante de viagens absurdas absurdas. E não deixa de ser absurda esta busca de um amigo que desapareceu, sombra que pertence a um passado também ele conjectural, numa Índia que se conhece quase só através de quartos de hotel, de hospitais, de estações de caminho caminho-de de-ferro ferro. Uma Índia que todavia transparece em conversas com profetas nómadas, Jesuítas portugueses, prostitutas de Bombaim, uma repórter que fotografa a miséria de Calcutá Calcutá. Mas este misterioso balletde sombras é sobretudo um hino às faculdades criativas da linguagem, pois é graças a uma palavra evocada em várias línguas que o viajante se aproxima daquele que procura. E é graças à escrita que esta viagem se transforma em livro, passa da insónia ao sonho e do sonho ao texto texto.

Leonor, Alcipe, condessa de Oeynhausen, marquesa de Alorna - nomes de uma mulher única e invulgarmente plural. Chamei-lhe Senhora do Mundo. Poderia ter-lhe chamado senhora dos mundos. Dos muitos mundos de que se fez senhora. Inconfundível entre as elites europeias pela sua personalidade forte e enorme devoção à cultura, desconcertou e deslumbrou o Portugal do séc. XVIII e XIX, onde ser mãe de oito filhos, católica, poetisa, política, instruída, inteligente e sedutora era uma absoluta raridade. Viveu uma vida intensa e dramática, mas jamais sucumbiu. Privou com reis e imperadores, filósofos e poetas, influenciou políticas, conheceu paixões ardentes, experimentou a opulência e a pobreza, a veneração e o exílio. Viu Lisboa e a infância desmoronarem-se no terramoto de 1755, passou dezoito anos atrás das grades de um convento por ordem do Marquês de Pombal e repartiu a vida, a curiosidade e os afectos por Lisboa, Porto, Paris, Viena, Avinhão, Marselha, Madrid e Londres. Marquesa de Alorna, Senhora do Mundo é uma história de amor à Liberdade e de amor a Portugal. A história de uma mulher apaixonada, rebelde, determinada e sonhadora que nunca desistiu de tentar ganhar asas em céus improváveis, como a estrela que, em pequena, via cruzar a noite.

Tragédia e amor, humilhação e riqueza, clausura e o esplendor da corte de Portugal: a história da admirável mulher de D. João III.

Torquemada, 1507.

Joana I de Castela dá à luz a sua sexta e última filha enquanto acompanha o caixão do seu amado esposo até Granada. Catarina está destinada a fazer flamejar a divisa dos Habsburgo em Portugal, mas ninguém poderia pressentir a trágica vida que o destino lhe tinha reservado. Todo o seu existir foi agitado pelas contradições. Conheceu a pobreza mais extrema e a mais assombrosa riqueza; o feliz amor de um esposo apaixonado e o calvário das mortes dos seus nove filhos, mas nunca nada, nem ninguém, conseguiu vergar a sua fé inquebrantável, que a ajudou a superar as dores mais extremas com profunda e serena valentia.

Yolanda Scheuber, com o agradável estilo que a carateriza, traça aqui um magnífico relato, profundo e dilacerante, da mais nova das filhas da rainha, Joana I de Castela.

Leituras


«Madame Bovary sou eu», disse uma vez Flaubert, a quem o êxito do seu romance publicado em 1856 acabou por irritar, de tal modo eclipsou os seus outros livros.
Ema Bovary persegue a imagem do mundo que lhe é dada por uma certa literatura desligada da realidade. Arrastada pelas suas ilusões, a mulher do prosaico Carlos Bovary imagina-se uma grande amorosa.
A realidade revela-se impiedosa. E, no entanto, «Madame Bovary», na época judicialmente perseguido devido à sua «cor sensual» e à «beleza provocadora de Ema», está longe de ser essa lição de realismo que muitos nele quiseram ver.